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José De Quadros

SÃO PAULO, SUA, NOSSA PAULICEIA DESVAIRADA

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Tereza de Arruda – curadora

José De Quadros, artista autodidata, nascido em 1958 em Barretos, Brasil. Um longo caminho o levou à Alemanha, onde ingressou na Faculdade de Artes Plásticas de Kassel, formando-se em 1998 com especialização em Pintura. Mantém residência e ateliê em São Paulo e em Kassel. A pintura sempre foi sua linguagem artística, acompanhada pelo desenho. Neles, o artista aplica sua vivência do cotidiano, sedimentado por inúmeras camadas de acontecimentos históricos e histórias que vêm a nortear seu universo. Sua inspiração nasce da observação e da comoção alimentadas pelo olhar e pela escuta.

O Atelier de São Paulo, com o qual iniciamos esta mostra, compreende uma série finalizada em 2006, na qual o artista enaltece as minúcias e banalidades do cotidiano, dando-lhes uma posição de destaque a incorporá-las em sua obra. Os elementos são resgatados da arquitetura urbana do entorno de seu ateliê, habitada por vestígios coloniais ou ainda pelo caos urbano paulistano, relatado no emaranhado dos fios de alta tensão, varais e antenas de televisão a rasgar o panorama local. O artista contemporâneo não vive de uma ambientação idílica e fictícia, mas da realidade que lhe é imposta. No caso de José De Quadros estas características são marcantes, pois convive com as discrepâncias da Pauliceia por viver na periferia de São Paulo, a transpor em suas obras parte deste universo em um ato de interlocução, inserção e visibilidade de seu entorno o qual compõe a pluralidade desta cidade desvairada. São Paulo é revista neste ano de 2022 quando nos deparamos com o bicentenário da Independência do Brasil e, simultaneamente, com o Centenário de Semana de Arte Moderna de 22. A cidade tenta manter suas elegâncias sutis sem escândalo, preservando a postura de destaque no contexto socioeconômico e cultural.

Há, porém, somente um local intacto, no qual se encontram todas as verdades, incertezas, ideias e motivação do processo de criação – o ateliê em si. Na obra de José De Quadros, seu ateliê assume em diversos momentos a figura central de sua produção ligada a acontecimentos, momentos e perspectivas por ele materializadas e interpretadas com certa aridez e distanciamento. Paralelo ao contexto introspectivo de seu cotidiano de produção, ele permanece atento aos seres que o acompanham. Com grande desenvoltura no gênero do retrato, José capta testemunhos de sua intimidade pessoal desprovidos de qualquer atributo. Na série de retratos da etnia indígena Selk’Nam, tem-se o foco da pesquisa e visibilidade que José De Quadros dá a minorias em esquecimento, por ele homenageadas em séries distintas.

Há décadas vivendo na Alemanha, José De Quadros atenta também para a evolução sócio-político-cultural deste país. Surgiu, assim, uma série tendo jornais originais do período nazista como suporte. Sobre ela, o artista pinta insetos e outros animais que representam a praga a disseminar em seu entorno. Os desenhos e a sobrepintura velam à primeira vista a grande tragédia que ali atrás se esconde, enaltecendo, contudo, o perigo eminente.

São em momentos de reflexão e isolamento que José De Quadros dá vazão à abstração, como na obra Insulares, e se entrega à contemplação da paisagem e seu poder de comoção.


Vistas da Exposição | 22 de janeiro a 05 de março de 2022