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Jewels by Brazil’s Burle Marx Brothers

04 de junho - 30 de julho de 2022

Apresentação

As joias modernistas dos irmãos Burle Marx foram criadas numa época na qual o Brasil vendia cultura. Uma época na qual éramos desejados, admirados e ditávamos as regras da estética, da moda para o Mundo.

Haroldo Burle Marx foi o joalheiro preferido de colecionadores, estrelas de cinema, alta sociedade, dignitários e famílias reais.

Roberto Burle Marx era considerado um multiartista: pintor, artista plástico, criador de painéis de azulejos, arranjos florais e muito mais.

Desta união, criou-se a primeira e verdadeira joia modernista realmente brasileira: uma junção das pedras esculpidas por Haroldo Burle Marx, montada sobre uma estrutura de joias seguindo o paisagismo mágico de Roberto Burle Marx.

Arte132 Galeria

Fernando Abdalla


Dois artistas, uma afinidade: a arte das joias.

Os irmãos Burle Marx, Roberto (1909-1994) e Haroldo (1911-1991), tinham em comum a capacidade de se debruçar generosamente para as coisas do Brasil e devolver ao mundo experiências multiplicadoras. Artistas de primeira grandeza, produziram muito e com esmero. Pesquisaram profundamente os seus interesses e particularidades. Não eram sócios e não partilhavam ateliê no segmento de joias, mas aproximá-los como duas entidades independentes torna-se produtivo do ponto de vista cultural e da história da arte brasileira.

Graças à formação familiar humanista, e de amor ao país, eles incitaram arrojos e refinamentos em cada peça produzida: de paisagismos, por exemplo, como no caso de Roberto, a desenhos e execução de joias únicas, em particular na produção de Haroldo. O denominador de ambos está na rica e diversa obra de raiz brasileira presentes nas páginas da historiografia. Observe-se que Haroldo merece estudo e maior requalificação de seu legado.

Ter os desenhos de suas joias reunidos e confrontados propicia desencadear uma interpretação afetiva com os dois, ousada talvez. Ou apaziguadora, melhor dito. Roberto e Haroldo ficaram afastados por mais de quatro décadas. Questões de gênio, incompatibilidades, assuntos privados é, objetivamente, de pouca importância para enxergá-los conjuntamente. O que se destila dos ruídos remotos dos irmãos é a aproximação silenciosa e prazerosa desses croquis de Roberto e Haroldo, presentes na Arte 132. Vale olhar para ambos além da ligação genética.

Aqui estão exibidos formidável coleção de projetos de joias, pequenas aulas de design registradas para as futuras gerações, trabalhos com semelhanças e diferenças e, sem dúvida, a irmandade inconfessável do amor às gemas, metais perfilados e artesania. Desenhos executados ou não, o que temos aqui são provas artísticas agregadoras dos dois, em se tratando de ofício.

Haroldo é menos conhecido frente ao irmão, que se tornou uma das referências da modernidade brasileira. Mais velho que Roberto, foi ourives/designer/estudioso de joias até o fim da vida. Nasceu em São Paulo e não custa reavivar a memória. Ele tinha linhagem hereditária com o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) – seu avô era primo do grande teórico. Em 1945, começa a realizar desenhos de joias. Em 1954, toma a decisão de se dedicar em tempo integral à pesquisa de pedras preciosas. Tornou-se hábil no manejo de metais e, por fim, produziu bastante dentro de sua linguagem poética brasileira e universalista. Haroldo, vale frisar, pesquisou e aplicou nas peças, entre outras influências, a artesania inca e egípcia.

O esmero técnico, a pesquisa de materiais e o conhecimento humanista resumem em certa medida o perfil do artista. Haroldo estudou no tradicional Colégio Resende, no Rio de Janeiro, na Pitman´s College, em Londres, e na Hochhandelschule, de Berlim, além de formação em direito não exercido, também no Rio. Tornou-se dedicado especialista em gemologia – ciência que identifica a natureza das gemas das pedras preciosas – e lapidação, após formação por quatro anos pelo instituto Idar-Oberstein, na Alemanha. Dominava igualmente seis línguas.

Em 1981, o artista e a norte-america Alta Leath, mulher do deputado democrata texano Marvin Leath, se conheceram no Rio de Janeiro e iniciaram parceria para que suas obras fossem expostas e comercializadas nos Estados Unidos. Os dois se tornaram amigos até o fim da vida. Haroldo já circulava, igualmente, entre os amantes de joias únicas na Europa. A Coleção Altomar, criada por Alta em 1982, promoveu o artista e o incentivou a desenvolver joias inclusive com ouro 18 quilates.

As atrizes Natalie Wood (1938-1981) e Cicely Tyson (1924-2021), o cantor lírico Placido Domingo (1941) e a rainha Margarida (1940), da Dinamarca, são algumas das personalidades que adquiriram joias com a assinatura de Haroldo. O Museu de Ciências Naturais de Houston, nos Estados Unidos, manteve uma sessão dedicada ao artista por dois anos.  O The New York Times, a Vogue e a Connoisseur Magazine deram espaço editorial à qualidade e genialidade das pulseiras, colares, brincos, braceletes e anéis produzidos por ele.

Como convivi, por meio de pesquisa e contato direto por várias vezes, com o acervo de Roberto, incluindo a curadoria de exposições antológicas do artista, uma delas realizada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, por ocasião dos 100 anos de sua morte, em 2009, reforço que foi homem de vanguarda. Multiartista – conhecido pelas pinturas, desenhos e tapeçarias – é nome internacional incontornável por ter se dedicado a preservação da natureza e dado relevância ao paisagismo brasileiro.

Paulistano, nasceu num dos símbolos da cidade, a avenida Paulista esquina com a rua Ministro Rocha Azevedo. No cruzamento, seus pais construíram uma casa em estilo art nouveau batizada de Vila Fortunata, até hoje um pequeno pedaço de área verde (local que faz homenagem a um político e não ao artista, como seria plenamente merecido).  Viveu quase toda vida, entretanto, no Rio de Janeiro, onde estudou com Cândido Portinari (1903-1962). Sempre pretendeu ser conhecido como pintor, mas como um representante do idealizado homem do Renascimento, seguiu por caminhos vários e ficou conhecido como o mais representativo paisagista brasileiro.

Sem excessos nacionalistas e limitadores, Roberto tinha fascínio pela floração tropical. O primeiro projeto paisagístico, em 1932, foi para a residência Schwartz, em Copacabana, Rio. Em Recife, atuou como diretor de parques e jardins, o que propiciou expandir ainda mais o conhecimento da paisagem brasileira. Anos depois, saíram de sua prancheta projetos do Aterro do Flamengo, no Rio, Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e o Eixo Monumental, de Brasília, entre outros.

Como pintor, foi do figurativo ao abstrato quando, em 1950, adere ao Abstracionismo Abstrato. Simultaneamente, produziu grandes tapeçarias como uma das mais representativas que pertencente ao Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, executada pelo paulistano Atelier Douchez-Nicola.

Roberto trabalhou ainda com painéis cerâmicos, gravuras e esculturas, além dos projetos de joias. Seus últimos anos de vida se passaram no exuberante sítio de Guaratiba, no Rio, com sede projetada por Lúcio Costa. A lista de exposições que participou é enorme, passando por sete edições da Bienal de São Paulo e três de Veneza, sem contar individuais e coletivas na Europa, Ásia, Estados Unidos e América Latina.

Cabe ao espectador, ou ao amante de design de joias, fruir e fazer a leitura das especificidades de cada artista presentes na mostra. Se deliciar com os traços dos desenhos como desenhos (nada mais), ou as possibilidades das tridimensionalidades das peças, ou ainda notar aproximações e diferenças óbvias entre ambos. Roberto, assina Roberto, e Haroldo assina Haroldo.  Burle Marx faz jus a ambos.

Antonio Carlos Suster Abdalla | Museólogo


Vistas da Exposição | 04 de junho a 30 de julho de 2022

 


Fotos: 2022©SuzanaMendes